Novo governo e crise política: como ficam as pequenas empresas

Como a crise política afeta as pequenas empresas no Brasil

Em tempos de crise política e instabilidade econômica, a mídia é tomada de manchetes sobre o comportamento do “mercado” em relação a determinada notícia ou tendência. Na TV, economistas analisam a flutuação do câmbio e da bolsa como reações dos investidores aos acontecimentos do dia.

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Esses são diagnósticos feitos sob a ótica do mercado financeiro tentando traduzir movimentos de curto prazo, que nem sempre são tão claros. Mas o que os especialistas têm a dizer sobre a economia real, ou seja, sobre as consequências da crise política e econômica na produção, vendas do comércio e no ritmo de prestação de serviços?

Com a posse de Michel Temer como presidente interino até que a decisão final sobre o impedimento de Dilma Roussef seja tomada, será que as perspectivas vão mudar? Uma decisão como a do STF (Supremo Tribunal Federal) de julgar o pedido de impeachment do presidente em exercício traz mais turbulência? Qual a opinião dos especialistas sobre os próximos capítulos da crise política e seus efeitos no ecossistema empresarial brasileiro?

Confiança dos empresários foi abalada

No início de maio, a CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) divulgou que o ICMPE (Indicador de Confiança da Micro e Pequena Empresa), calculado em conjunto com o SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), teve queda de 12,1% entre março e abril.

O indicador baixou de 43,15 para 37,92 pontos. Trata-se de uma escala que vai de 0 a 100, que sinaliza a confiança dos micro e pequenos empresários sobre o desempenho de seus negócios para os próximos meses. Quando o resultado é inferior a 50 pontos, isso significa que a avaliação dos empreendedores é pessimista.

Os dados apontavam na mesma direção do que foi verificado pela edição do Termômetro ContaAzul de março. Nesse levantamento, realizado com 1.250 empresas, a perspectiva era de cautela e risco de fechamento, com 36,8% dos participantes indicando que “apenas sobreviveriam” sem lucrar e 15,5% que temiam ser obrigados a fechar as portas em decorrência da crise.

Como a crise política afeta o empreendedorismo?

O economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em entrevista ao jornal O Dia, observa que, de 2014 para cá, o número de empresas do Brasil tem aumentado. Isso pode parecer uma boa notícia, mas há uma ressalva importante a se fazer na hora de interpretar esse fato. O empreendedorismo que ganha força durante a crise é de sobrevivência, sem expectativa de crescimento.

Em entrevista ao jornal Zero Hora, Neri relembra os anos anteriores à crise para explicar o que acontece. “Foi uma coisa que demorei a entender nos últimos anos: quanto mais aumentava o trabalho formal, mais caía o empreendedorismo.” A questão está relacionada à motivação de iniciar os negócios, menos ligada a uma oportunidade e mais a uma necessidade.

Ele explica usando uma comparação: se há mais oferta de empregos com carteira assinada, onde havia dois vendedores de cachorro-quente, passa a existir apenas um. Quando o desemprego aumenta, acontece o contrário: na esquina onde mal cabia uma carrocinha de cachorro-quente, agora há três. “É um empreendedorismo às avessas. Muito mais um paraquedas do que um trampolim de ascensão social”, explica o economista na entrevista.

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E para as empresas já estabelecidas, o que muda?

Para a cientista política Andréa Oliveira Gozetto, coordenadora do MBA em Economia e Gestão – Relações Governamentais, do ISAE (Instituto Superior de Administração e Economia) FGV, a crise política afeta negativamente pequenas, médias e grandes empresas. Em entrevista à revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, ela opina que, mesmo com o presidente em exercício Michel Temer recuperando a governabilidade, as turbulências políticas devem continuar a ter efeitos  na economia.

A consequência, na visão de Andréa, é pior para as pequenas empresas, que já têm convivido com uma queda no consumo, o que compromete seu capital de giro. Em um cenário de empréstimos com juros mais altos, os empreendedores ficam com menos recursos para investir. A consequência é que piora a situação de estagnação no mercado produtivo e de serviços.

Já o empresário, administrador e professor Roberto Dias Duarte, em conversa com o blog da ContaAzul para Contadores, compartilhou uma visão mais otimista. Ele discorda de quem acredita que, com Dilma fora do jogo, não haverá condições políticas para levar adiante medidas necessárias para destravar a economia, como reformas trabalhistas, tributárias e previdenciárias, além de condições para investimentos em infraestrutura.

Roberto Dias Duarte acredita que haverá, sim, ambiente político para a efetivação dessas reformas. “Há um desejo, por parte não só dos empreendedores, mas dos trabalhadores também, de levar o país adiante. Esse clima, creio eu, será tão positivo que isso vai contaminar o ambiente político, permitindo que pelo menos parte dessas mudanças necessárias sejam concluídas de fato”, opina. Vale a pena assistir.

E agora, quais são os desafios?

Em entrevista ao El País Brasil, o professor da FGV Direito Rio, Daniel Vargas, diz que o projeto de desenvolvimento brasileiro é limitado, porque tem se mostrado “incapaz de produzir, inovar e estimular a criatividade do povo brasileiro”. Vargas não vê essa questão sendo debatida pelo governo interino. O pesquisador considera que o discurso dos novos ministros  têm sido mais voltados a um “microajuste contábil”, de contenção de gastos que não será capaz de solucionar o defeito nas contas públicas brasileiras.

Para Daniel Vargas, ao mesmo tempo que o Brasil, nos últimos 15 anos, viu milhões de pessoas saírem da condição de pobreza, conviveu com um “vício original e profundo: a produtividade muito baixa”. Para ele, falta ações e atenção a um redirecionamento do desenvolvimento do país voltado a três aspectos:: “empreendedorismo, a inovação e o trabalho qualificado”.

Os impostos vão aumentar?

O risco de aumento de impostos existe e chegou a ser comentado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, dias antes de assumir o cargo. Para o economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Columbia e professor emérito da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, a preocupação com a arrecadação do Estado, poderia receber outros tipos de tratamento, como mudanças no sistema tributário.

Ele expôs essa opinião em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo: “O grande problema no Brasil atualmente é que há certas categorias que pagam muito menos impostos do que outras. Com o Simples, temos uma distorção enorme pela qual muitos profissionais liberais pagam uma taxa muito menor do que quem trabalha em uma empresa”, exemplifica.

Outro exemplo dado por Schenkman é a dispensa do pagamento de ICMS para alguns setores, como forma de incentivo fiscal. Na prática, a retirada ou redução desse tipo de condição deve acontecer antes de um aumento geral de tributos. Porém, vale lembrar que, para os segmentos que convivem com alíquotas diferenciadas, uma retirada de incentivos fiscais pode, sim, representar mais impostos a pagar.

A informação é uma arma

Se você acompanha o noticiário político e econômico, já deve ter entendido que, por aqui, ultimamente, muitas mudanças têm acontecido muito rapidamente, quase de um dia para o outro.

O resumo do cenário é:

  • Empresários desconfiados
    Toda a instabilidade dos últimos anos fez a confiança dos empresários está em baixa, o que demora a mudar, mesmo com troca de governo.
  • Turbulência política segue
    O país ainda parece distante de uma "calmaria política" e a cena continua cheia de surpresas.
  • Preocupação com aumento de imposto
    É improvável que haja reforma tributária ou redução de tarifas pagas. Há mais riscos de elevação ou fim de incentivos fiscais.

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As interpretações distintas por parte dos analistas são fruto de um cenário complexo, mas acompanhar essas opiniões e cultivar um espírito crítico e analítico sobre o presente e as perspectivas futuras é importante para não ficar à deriva nesse mar de incertezas. Ficar atento ao cenário permite até identificar oportunidades que surgem com a crise.

 

E qual é a sua opinião sobre a crise política atual e seus desafios para o empreendedorismo? Comente.

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